sábado, 24 de julho de 2010

Dúvida

Escutar a razão ou escutar o coração?

Perceber que o futuro é incerto, que o príncipe não é encantado. Perceber que a bruxa má é o destino e que a culpa não é da maçã que é envenenada, é de você, que a mordeu. Entender que as dificuldades existem e que o mundo não é um conto de fadas, responsabilidade e maturidade é o que você precisa no momento. Saber que a vida é feita de escolhas e que apenas com uma mal feita você perde um tempo enorme que não se recupera, saber que o pesadelo não acaba enquanto você não acordar e que ao abrir os olhos, a escuridão continua, se ainda não houver amanhecido o dia. Sentir que a distância incomoda, que um piscar de olhos não junta cidades, não junta amores, não junta felicidade. Sentir que tudo acaba um dia e a ferida cicatriza, mais cedo ou mais tarde.

Sentir que a ferida existe, mas a essência do veneno é o próprio remédio, que cicatriza ainda mais rápido a dor, que ainda bem acaba. Sentir que a distância pode ser quebrada com o pensamento, com um beijo mandado no ar. Saber que o despertar de um pesadelo é o começo de um sonho, que a noite é bela e que o amanhecer do sol é divino, saber que os momentos pequenos têm sua intensidade e importância tal como os grandes. Entender que a juventude nunca morre e que ser responsável nos fortalece, não é algo que implica a perda de esperança. E que as dificuldades existem para você aprender e achar o caminho certo, que você tanto procura. Perceber que você morde a maçã, mas sempre tem alguém para te fazer acordar com um carinho e o destino é esse, achar o príncipe que pode não ser encantado, mas não é um sapo. Perceber que a incerteza da vida e do futuro é a razão pela qual vivemos.

Escutar o coração ou escutar a razão?

domingo, 27 de junho de 2010

Lápis

Bateu o dedo na ponta do lápis, antes de começar. Afiado e com uma borracha fixada em seu outro pólo, o objeto mais precioso que ela possuía no momento tornou-se também seu único confidente. Com pressa, colocou a mão no bolso e agarrou um pedaço de papel velho que havia sido colocado na jaqueta há algum tempo. Com alguns poucos rabiscos, conseguiu mudar as letras e o coração desenhados no papel para algo abstrato, como se nunca houvesse existido outra coisa além de traços descoordenados. Respirou fundo. Pensou na primeira palavra ao mesmo em que seu coração parecia saltar do peito.
Escreveu, com a letra trêmula: 'Medo.' Essas quatro letras, associadas aos seus sentimentos naquele instante foram o suficiente para iniciar-se uma frase, que fora transformando-se em períodos e logo em seguida, parágrafos, preenchendo a folha por completo. Ali, sentindo o cabelo dançando ao som do vento forte, havia transformado em letras o retrato de sua vida. Amargura, dor e sofrimento eram vocábulos constantes, que faziam o texto parecer uma carta de despedida.
Desviou seu olhar para o lado ao ouvir um barulho e percebeu um gato correndo entre os sacos de lixo até alcançar o rato e abocanhá-lo com agilidade. Ficou, por um instante, pensando na cena. Ela era um gato ou um rato? Definitivamente, um rato. Aqueles de esgoto com rabos enormes dos quais as pessoas fogem de pavor. Por que ela não era o gato? Por que não poderia lutar por aquilo que deseja? Por que estava destinada a ser como o rato, ensanguentado e morto na boca de outro ser?
Levantou-se do chão sujo onde estava. Não havia motivos para continuar escondida entre aqueles velhos caixotes e vazias garrafas de cerveja quebradas. Passou os olhos pelo ambiente já demasiadamente escuro e aquela palavra que iniciara seu texto não fazia mais sentido. Percebeu- se corajosa. O mundo não está feito. O mundo não está pronto. O mundo não está completo. E cabe a ela preenchê-lo.
Rasgou o pedaço de papel no qual havia escrito 'Medo.' Cortou com os dedos onde a palavra 'treva' estava relatada. À medida que dava alguns passos, com mais vigor ia tirando as palavras ruins de seu texto, mandando-as embora junto com o coração rabiscado, deixando-as caídas naquele beco.
Aos poucos, o sol bateu em sua face. Seus raios acariciaram sua pele e, olhando para o céu, não reparou no belo menino de olhos azuis que cruzava o seu caminho. Trombaram-se. Assustaram-se. Olharam- se. Sorriram. Timidamente, olhou para baixo. Em sua mão, um pequeno pedaço de papel. Rasgou- o duas vezes. Viu uma palavra cair à sua frente. 'Solidão' estampava agora a calçada. Pisou no papel e encarou o rapaz que ainda lançava-lhe olhares. Não havia outra reação além de sorrir e sentir- se feliz. Afinal, em cada uma de suas mãos, havia lhe restado a 'vida' e o 'amor'.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Lua

Eu queria ser a lua.
Se eu pudesse sê-la, eu poderia estar com você em qualquer lugar, em qualquer momento. Eu poderia te olhar, sempre. Eu poderia te acariciar lentamente, te abraçar envolventemente.
Eu seria a lua cheia. Lua cheia pra poder te encobrir com minha luz. Pra poder brilhar ainda mais forte, pra você notar a minha presença. Eu iluminaria os seus caminhos, e os faria cada vez mais brilhantes. Eu ficaria ali, parada na sua frente, e só te observando.
Mas isso não seria o suficiente. Eu te amo, então eu o faria oceano.


Você seria o oceano.
Se você pudesse sê-lo, você estaria comigo em todos os meus momentos, em todos os lugares. Você poderia me proteger, sempre. E você poderia retribuir às carícias e abraços.
Você seria o maior oceano. Cheio de poder para rebater minha luz, você poderia brilhar para mim, você poderia me fazer maior e mais bonita. Você me faria cada vez mais importante. E você não se acomodaria em ficar ali, me encarando.
Você me encontraria no horizonte.


Nós seríamos o horizonte.
Se nos pudéssemos sê-lo, nós estaríamos misturados em todos os lugares e em todos os momentos. Nós estaríamos juntos, nos abraçando e acariciando.
Nós seríamos o horizonte mais longe. Mais longe pra poder viver sob a nossa luz, construir nossos caminhos. Nós poderíamos, então, ser um do outro, e só um do outro. E nós, finalmente, poderíamos ficar ali, só nos olhando.
Porque, bem, nós seríamos a lua, o oceano, e o horizonte. Nós seríamos eternos.